Mulheresnoamor Blog Tendências & Comportamento Por que relacionamentos saudáveis parecem entediantes para quem cresceu no caos?
Tendências & Comportamento

Por que relacionamentos saudáveis parecem entediantes para quem cresceu no caos?

Por que relacionamentos saudáveis parecem entediantes para quem cresceu no caos

Por que relacionamentos saudáveis parecem entediantes para quem cresceu no caos

Uma análise sobre como a nossa “primeira lição de amor” molda a tolerância à dor e por que o subconsciente insiste em voltar para lugares onde nunca fomos felizes.

Às 3 da manhã, quando o silêncio da casa amplifica os pensamentos, surge a pergunta inevitável. Aquela que dói mais do que o próprio término ou a solidão: “O que há de errado comigo?”

Você olha para trás e identifica um padrão assustador. Rostos diferentes, histórias distintas, mas a mesma dinâmica de ansiedade. A mesma necessidade exaustiva de lutar por afeto. A eterna sensação de estar sempre “quase” sendo amada.

Se você já se pegou rejeitando alguém disponível e gentil porque “não sentiu química”, para logo depois se apaixonar por alguém indisponível, este texto é para você.

A resposta curta é: não há nada de intrinsecamente “errado” com você. Você não nasceu quebrada. Mas existe algo fundamental que foi aprendido. E o que aprendemos na base, infelizmente, torna-se a bússola para o resto da vida.

O Vício em Caos Emocional: Entendendo a Raiz

Para entender por que somos atraídos pelo perigo emocional, precisamos analisar nossa definição visceral de “conforto”. O cérebro humano é programado para buscar o que é familiar, não necessariamente o que é bom.

Pessoas que cresceram em lares seguros, onde o amor era uma presença calma, constante e previsível, possuem um “sistema de alarme” funcional.

  • Quando encontram um parceiro instável (que ora some, ora adora), sentem repulsa.
  • Elas acham o drama desnecessário e cansativo.
  • Elas vão embora na primeira bandeira vermelha.

Mas e se a sua primeira sala de aula sobre o amor não foi calma?

Se, na sua história, o amor foi sinônimo de incerteza; se você aprendeu cedo que atenção é algo pelo qual se deve lutar, ou que é preciso “pisar em ovos” para não despertar a ira ou a indiferença de um adulto, seu cérebro registrou uma equação perigosa:

Amor = Caos + Estado de Alerta

Você aprendeu que amar é viver na iminência do perigo. Que o afeto não é um direito, mas uma migalha que se ganha após “bom comportamento” ou muito esforço.

Por que a Paz Soa como Tédio

Quando você, já adulta, encontra alguém que oferece um amor saudável — disponível, tranquilo, sem jogos mentais —, isso soa estranho ao seu sistema nervoso desregulado.

A paz não é interpretada como segurança; ela é interpretada como tédio.

Falta a adrenalina (o pico de cortisol e dopamina). Falta a familiaridade da luta. Você se sente vazia, como se “faltasse algo”. Na verdade, o que falta é a ansiedade à qual você se viciou.

Por outro lado, o relacionamento turbulento ativa uma memória antiga. A imprevisibilidade não assusta; ela conforta de uma maneira distorcida. Aquele caos parece… casa.

A Compulsão à Repetição: Tentando Salvar o Passado

O que mantém você presa a esse ciclo tem um nome na psicologia.

A compulsão à repetição é uma tentativa inconsciente do cérebro de recriar situações traumáticas ou dolorosas do passado, na esperança de que, desta vez, possamos controlar o resultado.

O vínculo traumático não é uma lealdade ao parceiro atual, mas uma lealdade a uma esperança antiga. Você nutre a crença secreta de que pode “consertar” a pessoa. Acredita que, se for paciente o suficiente, bonita o suficiente ou amorosa o suficiente, ele vai mudar.

Mas aqui está a verdade brutal que muda tudo:

Inconscientemente, não estamos tentando salvar o parceiro. Estamos tentando salvar a criança que fomos.

É como voltar à cena do crime para tentar reescrever o final da história. Você quer, finalmente, vencer a máquina do cassino que te roubou na infância. A dor de se afastar de um relacionamento tóxico não é apenas saudade dele; é o medo de abandonar essa missão infantil de “fazer dar certo”.

Condicionamento não é Destino

Reconhecer isso dói, mas é o primeiro passo para a liberdade. A boa notícia é: você não é fraca, você é condicionada.

E condicionamento não é destino; é programação. O cérebro possui neuroplasticidade. Ele pode criar novas rotas, novas definições de amor e novos padrões de atração. Tudo o que foi aprendido pode ser desaprendido.

Como começar a mudança:

  1. Reconheça o tédio como segurança: Quando sentir tédio com alguém legal, espere. Dê tempo ao seu sistema nervoso para recalibrar.
  2. Identifique a “química” do trauma: Se a atração for imediata e avassaladora, cheia de ansiedade, desconfie. Isso geralmente é o seu trauma reconhecendo o trauma do outro.
  3. Acolha a sua criança: Pare de tentar salvar a criança que você foi através de parceiros difíceis. Salve-a você mesma, hoje, oferecendo a ela a estabilidade que ela não teve.

Você pode ensinar ao seu sistema nervoso que o “tédio” inicial de uma relação calma não é falta de amor, é apenas a ausência de drama. E que a paz, uma vez que você se acostuma com ela, é a única base sólida possível para construir a felicidade que você merece.

Foto de Escrito por Dione Sampaio

Escrito por Dione Sampaio

Escritor e pesquisador independente, dedicada a entender as complexidades dos relacionamentos modernos.

Sair da versão mobile